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ATELIÊ ARTETERAPÊUTICO COMO UM LABORATÓRIO DE ESCOLHAS

ATELIÊ ARTETERAPÊUTICO COMO UM LABORATÓRIO DE ESCOLHAS
Por Flávia Hargreaves

Talvez você já tenha se deparado com o silêncio que se instala no ateliê quando pergunta ao cliente: "O que você gostaria de fazer hoje?", enquanto apresenta as possibilidades de materiais e pede que ele escolha. Enquanto algumas pessoas paralisam diante de diversas possibilidades, outras se lançam com entusiasmo e curiosidade na manipulação do material.

Esse cenário nos convoca a uma reflexão essencial sobre o manejo dos materiais na Arteterapia: você costuma oferecer a possibilidade de escolha ao seu cliente? Confia na decisão dele ou assume o lugar de quem sabe o que é melhor?

 

MODELO ESTRUTURADO OU ESTÍMULO À AUTONOMIA NO PROCESSO?

Muitos profissionais trabalham com propostas fortemente estruturadas, guiando a sessão passo a passo. Nesses casos, o material já vem definido e, às vezes, até com etapas adiantadas, como papéis previamente cortados, mandalas riscadas, desenhos para colorir ou bonecas de pano para serem personalizadas.

No meu modo de exercer a Arteterapia, entendo que é preciso analisar cada caso e reconhecer o nosso próprio estilo de trabalho. Afinal, qual proposta ajudará aquela pessoa, naquele momento de vida, a lidar com o que as imagens revelam na terapia? Quais são as suas necessidades e possibilidades físicas, emocionais e cognitivas?

Ao esclarecer esses pontos, podemos planejar os atendimentos com clareza de objetivos e meios. Nesse contexto, a escolha pode ser por um plano mais direcionado, com etapas definidas pelo arteterapeuta, ou por um acompanhamento livre e espontâneo, fortalecendo a autonomia do cliente na escolha das linguagens e materiais.

Podem parecer caminhos excludentes, mas não precisam ser. No ateliê, transitamos por muitas nuances entre a expressão livre e as práticas mais diretivas. Em determinados momentos, oferecer estrutura e segurança é justamente o que permite à pessoa conseguir se expressar pela arte.

Contudo, quando o cliente já tem condições de acolher uma proposta mais aberta, entregar um exercício totalmente amarrado faz com que percamos uma oportunidade preciosa: colocar a decisão nas mãos dele. Escolher a própria linguagem e os materiais significa assumir a responsabilidade e a autonomia pelo seu próprio processo criativo.


O MICRO E O MACRO: O ESPELHO DA VIDA

Escolher um caminho no ateliê, assim como na vida, exige abrir mão de outros. O processo criativo mostra se a pessoa busca resultados rápidos ou se precisa de tempo; se prefere o que já conhece e lhe traz segurança, ou se lança na descoberta de novos caminhos. Desenhar, pintar e modelar são ações que oferecem vivências completamente diferentes.

As atitudes no ateliê revelam muito sobre o funcionamento da pessoa na relação consigo mesma, com o outro e com o mundo. Tornam explícitos padrões como agir sem pensar ou ponderar tanto a ponto de procrastinar; evidenciam o peso dado à opinião alheia ou o condicionamento de precisar agradar para se sentir amada; e mostram como a pessoa lida com as consequências de suas escolhas.

A criação artística, desde a escolha e manipulação dos materiais até a imagem final, opera como um ritual. É um verdadeiro ensaio para as escolhas difíceis da vida real, auxiliando diretamente na tomada de consciência e no fortalecimento para a ação.

 

COMO INTRODUZIR UM MODELO MAIS LIVRE E ESPONTÂNEO NA SUA PRÁTICA?

Se você deseja transitar de um modelo diretivo para uma prática mais livre, a mudança não precisa ser radical. Uma estratégia simples e eficiente é "prender" uma variável e "liberar" as outras:

 

  • Cor: A cor é um dos elementos fundamentais da imagem. Você pode partir de uma regra simples: "Hoje você vai explorar apenas uma cor". O cliente escolhe a cor que desejar e tem total liberdade para decidir o material e a linguagem (giz de cera, tinta, colagem ou massa de modelar).
  • Tema: O tema deve estar alinhado aos objetivos do seu atendimento. Se for um trabalho em grupo, use um tema amplo, como por exemplo "Força" ou "Primavera". Mantenha o tema fixo, mas deixe em aberto se a criação será feita por meio de desenho, escultura com sucata, modelagem ou tecido. Ofereça opções.

 Nesses casos, a proposta do arteterapeuta serve apenas como ponto de partida; as escolhas seguintes pertencem ao cliente. Aos poucos, ele ganha segurança para ditar o próprio ritmo no processo.

Agora me conta: como é o manejo das escolhas no seu ateliê? Você costuma dar espaço para o cliente decidir os materiais ou prefere propostas mais estruturadas? Compartilhe sua experiência nos comentários!


Se você gostou deste artigo, compartilhe com outros profissionais que também possam se beneficiar desse olhar.

(Caso tenha qualquer dificuldade para publicar seu comentário aqui no blog, você pode enviá-lo para o e-mail: arteparaterapia@gmail.com que ele será publicado).

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Flávia Hargreaves é arteterapeuta (UBAAT 01/402/0508), artista e professora de artes para terapia.

Graduada em Comunicação Visual (EBA- UFRJ-1989)

Licenciatura Plena em Educação Artística - Artes Plásticas (EBA-UFRJ- 2010)

Formação em Arteterapia com Ligia Diniz (2009)

 

Participou como docente de História da Arte nos cursos de Formação em Arteterapia (Ligia Diniz, Baalaka e Leiza Pereira) e Artepsicoterapia (Coord. Maria Cristina Urrutigaray).

Em 2017 fundou o ateliê Locus, onde oferece cursos, ateliês livres e atendimentos em Arteterapia.

Foi colaboradora da Casa das Palmeiras (2014-2018) e Casa Verde (2009). 
Em 2021 criou o projeto Arte para Terapia oferecendo cursos online de História da Arte para Terapia.  
Membro fundadora do coletivo Arteterapeutas do Rio.

 

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