--- por Bella Cesar
Hoje temos o prazer de receber uma convidada especial! A arteterapeuta e artista plástica Bella Cesar compartilhando conosco suas reflexões sobre um tema que vivemos com mais frequência do que gostaríamos: BLOQUEIO CRIATIVO. Quantas vezes nós e nossos clientes se deparam com "dificuldade para iniciar, medo de errar, paralisia diante do papel em branco ou abandono precoce de um trabalho?" Quem trabalha com a produção artística do outro no ateliê ou na clínica precisa compreender o que está por trás deste fenômeno para poder de fato acompanhar e auxiliar o outro no desafio que é CRIAR.
Boa leitura e lembre de deixar sua opinião nos comentários deste texto!
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Bloqueio criativo na arte e na arteterapia:
quando criar fica difícil.
O bloqueio criativo é um fenômeno frequente tanto na produção artística quanto no contexto clínico da arteterapia. Ele pode se manifestar como dificuldade para iniciar, medo de errar, paralisia diante do papel em branco ou abandono precoce de um trabalho. Embora pareça, à primeira vista, um problema de falta de repertório, o bloqueio costuma estar ligado a fatores emocionais e relacionais: cobrança, controle, exposição e autocrítica.
Quando observado com mais cuidado, o
bloqueio não precisa ser entendido como um obstáculo definitivo. Muitas vezes,
ele funciona como um sinal importante do que está acontecendo internamente:
excesso de exigência, insegurança, medo do julgamento ou dificuldade de
sustentar a própria expressão.
Compreender esse processo ajuda a tirar o
bloqueio do lugar de falha e reposicioná-lo como parte de uma dinâmica humana,
comum e possível de ser atravessada tanto na prática artística quanto na
arteterapia.
O que chamamos de bloqueio criativo
De modo geral, o bloqueio criativo pode ser
entendido como uma interrupção temporária do fluxo de criação. Ele não
significa incapacidade permanente, e nem necessariamente indica falta de
repertório ou de técnica.
Em muitos casos, o bloqueio está
relacionado a fatores como:
- medo de
errar ou não ser bom o suficiente;
- perfeccionismo
e autocrítica excessiva;
- comparação
constante com referências externas;
- ansiedade
e excesso de expectativa sobre o resultado;
- cansaço
emocional e mental;
- dificuldade
de se expor ou de sustentar a própria expressão.
Quando esses elementos se intensificam, o
processo criativo pode se tornar pesado e o corpo responde com retração,
resistência ou adiamento.
O bloqueio no artista: quando o processo vira avaliação
No contexto artístico, o bloqueio costuma aparecer quando a criação passa a ser tratada como um teste de valor. Em vez de ser um território de pesquisa e linguagem, a obra passa a carregar a exigência de provar algo: competência, originalidade, consistência, reconhecimento.
Esse movimento é especialmente comum em
períodos de maior exposição, transição de estilo, comparação ou pressão por
produtividade.
Nessas fases, o artista pode se ver preso a
perguntas como:
- E se eu
não conseguir entregar algo bom?
- E se eu
repetir o que já fiz?
- E se eu
decepcionar?
- E se eu não tiver mais criatividade?
A consequência é um aumento do controle e uma redução do risco. Porém, a criatividade depende justamente de um espaço interno onde experimentar seja permitido. Quando a criação fica condicionada ao acerto, o gesto perde espontaneidade.
O bloqueio na arteterapia: quando a
expressão assusta
Na arteterapia, o bloqueio também é frequente, e pode ter uma camada emocional ainda mais evidente. Para muitas pessoas, criar algo, pode significar se expor, entrar em contato com sentimentos, memórias e conteúdos internos que nem sempre estão organizados verbalmente.
Alguns pacientes bloqueiam por acreditarem
que não sabem desenhar, mas, muitas vezes, essa frase encobre algo mais
profundo: medo de julgamento, vergonha, insegurança ou necessidade de controle.
Além disso, a expressão simbólica pode
tocar pontos sensíveis. A imagem, a cor, a forma e o gesto podem aproximar o
indivíduo de emoções que ele costuma evitar no cotidiano. Nesse sentido, o
bloqueio pode funcionar como um mecanismo de proteção.
Por isso, é importante compreender na
arteterapia, o bloqueio não é um problema a ser combatido. Ele é um dado
clínico. Um sinal de que algo precisa de cuidado.
O ponto em comum: controle, medo e
autocrítica
Embora artista e cliente estejam em contextos diferentes, o bloqueio criativo costuma se organizar em torno de elementos semelhantes:
- medo de
falhar;
- medo de
ser avaliado;
- medo de
se expor;
- excesso
de controle;
- dificuldade em tolerar o “não saber”.
A criatividade exige uma disponibilidade
interna que nem sempre está acessível quando a mente está em alerta. Em muitos
casos, a trava criativa não é ausência de capacidade, é excesso de tensão.
Como a arteterapia pode ajudar a destravar o processo
Uma das contribuições centrais da
arteterapia é recolocar a criação no lugar de experiência, não de performance.
O foco não está em produzir algo “certo”, mas em sustentar um processo de
expressão com presença e segurança.
Isso acontece de diversas formas:
1) A criação é acolhida como linguagem
Na arteterapia, a imagem não precisa ser “bonita” ou “bem-feita” para ter valor. O que importa é o que ela expressa, organiza ou revela sobre o mundo interno do paciente.
2) O processo tem prioridade sobre o resultado
Quando a pessoa percebe que não está sendo avaliada, ela tende a se permitir mais. E é nesse espaço que a criação volta a movimentar.
3) O ritmo é respeitado
O bloqueio pode indicar que há algo que precisa ser aproximado aos poucos. A pressa costuma aumentar a resistência. O tempo, se bem conduzido, produz confiança.
4) O corpo participa
Muitas vezes, destravar não é “pensar
melhor”, e sim criar condições para o corpo voltar ao gesto: recortar, colar,
manchar, rasgar, sobrepor, repetir.
Práticas simples para facilitar o retorno à criação
Algumas estratégias podem ser úteis tanto
para artistas quanto para pessoas em processo terapêutico. Elas não substituem
um acompanhamento profissional quando necessário, mas funcionam como portas de
entrada para retomar o fluxo criativo.
- Começar
pequeno: uma folha menor, poucos minutos, um único material.
- Trabalhar
com limites: duas cores, uma forma, um tema mínimo.
- Priorizar
gesto e textura: linhas, manchas, repetição, colagem.
- Suspender
a autocrítica no início: primeiro fazer, depois observar.
- Permitir o “imperfeito”: criar sem a obrigação de acertar.
Essas práticas reduzem o peso do resultado
e devolvem à criação seu caráter de experimentação.
Considerações finais
O bloqueio criativo é uma experiência legítima e frequente. Ele pode ser compreendido como uma interrupção temporária do fluxo de criação, muitas vezes associada a medo, excesso de cobrança, autocrítica e necessidade de controle.
Na arte e na arteterapia, o bloqueio não precisa ser tratado como um inimigo. Ele pode ser lido como um sinal de que o processo precisa de ajuste: mais segurança, mais tempo, menos exigência e mais presença.
Quando o indivíduo encontra condições para
criar sem se sentir avaliado, a criatividade tende a retornar. Não como uma
obrigação, mas como um movimento natural de expressão e reorganização interna.
Talvez uma das tarefas mais delicadas do
arteterapeuta seja justamente essa: sustentar o tempo do processo, sem pressa e
sem cobrança, até que a expressão volte a encontrar calma e leveza, permitindo
a passagem.
Se você é arteterapeuta, como costuma
reconhecer o bloqueio criativo no setting?
Você percebe mais bloqueios ligados ao medo de errar, à autocrítica ou à
dificuldade de se expor?
Me conta aqui nos comentários!
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Bella Cesar é artista plástica e arteterapeuta. Trabalha com processos de criação e expressão simbólica, investigando como a arte pode favorecer presença, organização interna e reconexão com a própria linguagem.
Instagram @bellacesar.arte @arteterapiasemfronteiras



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