Talvez
você já tenha se deparado com o silêncio que se instala no ateliê quando
pergunta ao cliente: "O que você gostaria de fazer hoje?",
enquanto apresenta as possibilidades de materiais e pede que ele escolha.
Enquanto algumas pessoas paralisam diante de diversas possibilidades, outras se
lançam com entusiasmo e curiosidade na manipulação do material.
Esse cenário nos convoca a uma reflexão essencial sobre o manejo dos materiais na Arteterapia: você costuma oferecer a possibilidade de escolha ao seu cliente? Confia na decisão dele ou assume o lugar de quem sabe o que é melhor?
MODELO
ESTRUTURADO OU ESTÍMULO À AUTONOMIA NO PROCESSO?
Muitos profissionais trabalham com propostas fortemente estruturadas, guiando a sessão passo a passo. Nesses casos, o material já vem definido e, às vezes, até com etapas adiantadas, como papéis previamente cortados, mandalas riscadas, desenhos para colorir ou bonecas de pano para serem personalizadas.
No meu modo de exercer a Arteterapia, entendo que é preciso analisar cada caso e reconhecer o nosso próprio estilo de trabalho. Afinal, qual proposta ajudará aquela pessoa, naquele momento de vida, a lidar com o que as imagens revelam na terapia? Quais são as suas necessidades e possibilidades físicas, emocionais e cognitivas?
Ao
esclarecer esses pontos, podemos planejar os atendimentos com clareza de
objetivos e meios. Nesse contexto, a escolha pode ser por um plano mais
direcionado, com etapas definidas pelo arteterapeuta, ou por um acompanhamento
livre e espontâneo, fortalecendo a autonomia do cliente na escolha das
linguagens e materiais.
Podem parecer caminhos excludentes, mas não precisam ser. No ateliê, transitamos por muitas nuances entre a expressão livre e as práticas mais diretivas. Em determinados momentos, oferecer estrutura e segurança é justamente o que permite à pessoa conseguir se expressar pela arte.
Contudo,
quando o cliente já tem condições de acolher uma proposta mais aberta, entregar
um exercício totalmente amarrado faz com que percamos uma oportunidade
preciosa: colocar a decisão nas mãos dele. Escolher a própria linguagem e os
materiais significa assumir a responsabilidade e a autonomia pelo seu próprio
processo criativo.
O
MICRO E O MACRO: O ESPELHO DA VIDA
Escolher um caminho no ateliê, assim como na vida, exige abrir mão de outros. O processo criativo mostra se a pessoa busca resultados rápidos ou se precisa de tempo; se prefere o que já conhece e lhe traz segurança, ou se lança na descoberta de novos caminhos. Desenhar, pintar e modelar são ações que oferecem vivências completamente diferentes.
As atitudes no ateliê revelam muito sobre o funcionamento da pessoa na relação consigo mesma, com o outro e com o mundo. Tornam explícitos padrões como agir sem pensar ou ponderar tanto a ponto de procrastinar; evidenciam o peso dado à opinião alheia ou o condicionamento de precisar agradar para se sentir amada; e mostram como a pessoa lida com as consequências de suas escolhas.
A criação artística, desde a escolha e manipulação dos materiais até a imagem final, opera como um ritual. É um verdadeiro ensaio para as escolhas difíceis da vida real, auxiliando diretamente na tomada de consciência e no fortalecimento para a ação.
COMO
INTRODUZIR UM MODELO MAIS LIVRE E ESPONTÂNEO NA SUA PRÁTICA?
Se você deseja transitar de um modelo diretivo para uma prática mais livre, a mudança não precisa ser radical. Uma estratégia simples e eficiente é "prender" uma variável e "liberar" as outras:
- Cor:
A cor é um dos elementos fundamentais da imagem. Você pode partir de uma
regra simples: "Hoje você vai explorar apenas uma cor". O
cliente escolhe a cor que desejar e tem total liberdade para decidir o
material e a linguagem (giz de cera, tinta, colagem ou massa de modelar).
- Tema:
O tema deve estar alinhado aos objetivos do seu atendimento. Se for um
trabalho em grupo, use um tema amplo, como por exemplo "Força"
ou "Primavera". Mantenha o tema fixo, mas deixe em aberto
se a criação será feita por meio de desenho, escultura com sucata,
modelagem ou tecido. Ofereça opções.
Nesses casos, a proposta do arteterapeuta serve apenas como ponto de partida; as escolhas seguintes pertencem ao cliente. Aos poucos, ele ganha segurança para ditar o próprio ritmo no processo.
Agora
me conta: como é o manejo das escolhas no seu ateliê? Você costuma dar espaço
para o cliente decidir os materiais ou prefere propostas mais estruturadas?
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(Caso tenha qualquer dificuldade para publicar seu comentário aqui no blog, você pode enviá-lo para o e-mail: arteparaterapia@gmail.com que ele será publicado).
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Flávia
Hargreaves é arteterapeuta (UBAAT 01/402/0508), artista e professora de artes
para terapia.
Graduada
em Comunicação Visual (EBA- UFRJ-1989)
Licenciatura
Plena em Educação Artística - Artes Plásticas (EBA-UFRJ- 2010)
Formação
em Arteterapia com Ligia Diniz (2009)
Participou
como docente de História da Arte nos cursos de Formação em Arteterapia (Ligia
Diniz, Baalaka e Leiza Pereira) e Artepsicoterapia (Coord. Maria Cristina
Urrutigaray).
Em
2017 fundou o ateliê Locus, onde oferece cursos, ateliês livres e atendimentos
em Arteterapia.
Foi
colaboradora da Casa das Palmeiras (2014-2018) e Casa Verde (2009).
Em 2021 criou o projeto Arte para Terapia oferecendo cursos online de História
da Arte para Terapia.
Membro fundadora do coletivo Arteterapeutas do Rio.
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Contato
arteparaterapia@gmail.com


Gosto muito dessa abordagem que oferece escolhas para o cliente.
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