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Arteterapeuta: Você precisa sujar as mãos!

---por Flávia Hargreaves


Laura, arteterapeuta em formação em seus exercícios no ateliê Locus.
Foto: Flávia Hargreaves, 2025.


Neste texto trago um “alerta” para arteterapeutas sobre o (des)compromisso com a sua prática artística. Muitas vezes, mergulhamos tanto no processo criativo do outro que esquecemos do nosso. Passamos o dia acompanhando as produções dos nossos clientes, observando cores e formas alheias, enquanto deixamos nossas próprias imagens congeladas dentro de nós. Por descaso — ou falta de tempo — permitimos que nossas “tintas e pincéis” sequem.

Quando permitimos que isto aconteça, construindo um muro invisível entre nós e a nossa expressão artística, o bloqueio criativo se instala. E este estado do profissional reverbera em seus atendimentos.


Mas como isso ocorre na prática?

A dinâmica da sessão de quem desenha, pinta, escreve ou dança é percebida pelo cliente. O profissional que investe no seu desenvolvimento artístico ganha intimidade com a arte e se liberta de receitas prontas. Ganha segurança ao oferecer os materiais expressivos e ao convidar o cliente a se aventurar no mundo dos materiais e das imagens.

Para nós, arteterapeutas, não se trata de um hobby ou de um momento de lazer. A prática artística regular é um pilar fundamental de estudo para quem trabalha com a produção do outro, seja na clínica ou em sala de aula. Eu sou arteterapeuta e professora de artes e me sentiria uma farsa se a arte não fizesse parte da minha rotina. Ao criar com regularidade, abri um espaço sagrado onde deixei de ser a observadora para me tornar a protagonista. Este exercício me protege de situações em que poderia me confundir com as imagens e processos criativos das pessoas que atendo. Como costumo dizer nas minhas aulas de artes para terapeutas: “Precisamos estar em dia com as nossas próprias imagens.”

Ao nos apropriarmos dos nossos processos pessoais conquistamos a segurança necessária para apoiar a jornada do cliente na sua expressão artística. Quando conhecemos a resistência da argila ou a fluidez da aquarela na própria pele ou vivemos a frustração ao não conseguir fazer o que imaginamos, nossa condução do trabalho deixa de ser exclusivamente teórica e passa a ser também vivencial.


Foto: Fernando Hargreaves, 2016.
 

Tornar-se artista faz parte da profissão do arteterapeuta.

É através dessa autoaceitação que você compreende que, na sessão, o seu cliente também é um artista. Essa clareza é um divisor de águas no processo arteterapêutico.

Muitas vezes, ouvimos profissionais dizerem, quase como uma defesa orgulhosa: "Eu não sou artista e o que fazemos aqui não é arte". Ao afirmar isso, perde-se uma fatia estruturante da autoexpressão. Se negamos o título de artista a nós mesmos e ao cliente, corremos o risco de desvitalizar o processo, reduzindo a potência da criação a um mero exercício de diagnóstico ou passatempo.

 

Te convido a sujar as mãos!

Reconheço que é muito difícil sair da inércia. Quantas vezes me vi fazendo planos na virada do ano e fui procrastinando até o Natal seguinte. Por isso resolvi te ajudar listando algumas decisões que você vai precisar tomar:


·        Descubra o que te move: Escolha algo que você goste ou queira aprender e defina um prazo real para começar.

·        Aposte no desafio: Na busca por uma linguagem que te faça feliz, inclua uma pitada de desafio para manter o interesse vivo.

·        Proteja sua agenda: Reserve um tempo para sua criação e trate-o como um compromisso inadiável.

·        Abaixe o volume do crítico: Permita-se o erro e a invenção livre.

·        Escolha o seu refúgio: Pode ser um curso, um ateliê livre ou um cantinho em casa. O importante é ser um lugar onde você se sinta segura para experimentar.

·        Tenha paciência: Você está buscando um caminho; nem sempre a primeira tentativa será a que vai florescer de imediato. Persista.


Me conta aqui nos comentários: o que você sentiu ao ler este texto?

Se você curtiu, compartilhe com quem você acredita que vá se beneficiar deste conteúdo. E assim, vamos crescer e transformar o olhar para a Arte na nossa prática profissional.

Caso tenha dificuldade em publicar seu comentário neste blog você poderá encaminhá-lo para o email: arteparaterapia@gmail.com que ele será publicado. 

Obrigada.

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Flávia Hargreaves é arteterapeuta (UBAAT 01/402/0508), artista e professora de artes para terapia.
Graduada em Comunicação Visual (EBA- UFRJ-1989)
Licenciatura Plena em Educação Artística - Artes Plásticas (EBA-UFRJ- 2010)
Formação em Arteterapia com Ligia Diniz (2009)

Participou como docente de História da Arte nos cursos de Formação em Arteterapia (Ligia Diniz, Baalaka e Leiza Pereira) e Artepsicoterapia (Coord. Maria Cristina Urrutigaray).
Em 2017 fundou o ateliê Locus, onde oferece cursos, ateliês livres e atendimentos em Arteterapia.
Foi colaboradora da Casa das Palmeiras (2014-2018) e Casa Verde (2009). 
Em 2021 criou o projeto Arte para Terapia oferecendo cursos online de História da Arte para Terapia. 
 
Membro fundadora do coletivo Arteterapeutas do Rio.

Siga-nos nas redes sociais

Contato
arteparaterapia@gmail.com


 


Comentários

  1. Experimentar é uma palavra que abre muitas portas. Conduzir outra pessoa através de um processo terapêutico exige coragem e muita sensibilidade. Quando experimentamos o fazer artístico nos sentimos mais seguros e preparados para acompanhar as experimentações dos nossos clientes. Laura Nessimian

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    Respostas
    1. Você tocou num ponto importantíssimo nesse processo: CORAGEM, agir com o coração. Antes de acompanhar o outro, CORAGEM PARA TAMBÉM SER ARTISTA e CRIAR.

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  2. Gostei muito deste texto

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