--- por Flávia Hargreaves
O "medo da folha em
branco" é um velho conhecido de quem trabalha com arte, e não é diferente
quando utilizamos a expressão artística na terapia. O bloqueio no fluxo
criativo apresenta muitas camadas, entre elas as memórias afetivas de como cada
um aprendeu a lidar com a própria criatividade. Neste texto, vou explorar como
o repertório artístico do profissional, a preparação do ambiente e a oferta dos
materiais podem auxiliar o cliente a atravessar o silêncio como parte do
processo e a se apropriar da sua autoexpressão.
O Repertório não é para "dar ideias!"
A base do repertório artístico do arteterapeuta deve ser a vivência nos
próprios processos da arte como autoexpressão e o estudo da História da Arte.
Como costumo dizer: precisamos estudar Arte experimentando! Muito além de ter
ideias para oficinas e atendimentos, é preciso sentir na pele o bloqueio, a
frustração com o resultado e, também, a alegria de encontrar o material e a
linguagem nos quais se sente segurança para criar livremente.
Um equívoco comum, quando o profissional não mergulha no seu próprio processo
artístico, é tentar ocupar o vazio a qualquer custo, propondo práticas. Isso
acontece não porque auxilie o cliente, mas para aplacar a crença do terapeuta
de que, se não houve produção na sessão, a arteterapia falhou.
Fortalecer o repertório artístico vai auxiliar o arteterapeuta a:
Validar o bloqueio: Entender que a pausa faz parte do percurso e pode
ocorrer em diferentes estágios:
1. No início, durante a construção do vínculo;
2. Quando um conteúdo difícil surge
espontaneamente e a pessoa ainda não está pronta para elaborá-lo;
3. Na transição entre períodos de
intensa produção. Nesses momentos, a pausa é, na verdade, um rico período de
incubação para novos caminhos, e o terapeuta precisa saber sustentar, acolher e
ouvir.
Identificar a raiz: Qual a relação do cliente com a arte? Existem
crenças limitantes sobre perfeccionismo, autocrítica excessiva ou comparações
com modelos inatingíveis? Ou seria o bloqueio apenas um "respiro"
necessário para seguir em frente?
O arteterapeuta precisa viver honestamente seus próprios bloqueios para não
invadir o processo do outro, evitando identificar apressadamente o silêncio
como "resistência".
Oferta de materiais: cuidado com os excessos.
Os materiais de arte são, de fato, sedutores. É gratificante preparar uma mesa
colorida e diversa, mas esse "banquete" pode não funcionar para
todos. Na minha experiência com adultos, percebo que o excesso de estímulo pode
ser apavorante e reforçar o bloqueio. O material, que deveria ser ponte,
torna-se obstáculo.
Qual a medida certa? Não existe fórmula única, mas sim um olhar
sensível. Aqui estão algumas sugestões:
1. O excesso paralisa: Muitas opções dificultam a escolha e tocam em pontos
sensíveis sobre tomar decisões e assumir consequências. Se essa dificuldade se
repete na vida do cliente, a arteterapia deve ser, inicialmente, esse lugar de
segurança e simplicidade;
2. O "Plano B" é
essencial: Se você planejou uma atividade com aquarela para trabalhar a fluidez
com alguém que só utiliza colagem, ofereça a novidade, mas mantenha o material
habitual na mesa. A transição do "Ponto A" para o "Ponto B"
deve ser um convite, nunca uma imposição.
No início do processo, uma estratégia eficaz é oferecer um conjunto limitado e
claro (3 ou 4 possibilidades): desenho (lápis ou giz), pintura (guache ou
aquarela), colagem ou tridimensionalidade (argila ou massinha).
Conhecer as qualidades da matéria (se é macia, fria, seca ou fluida) é o que
permite ao terapeuta oferecer a ferramenta certa para destravar a expressão de
sentimentos.
Conclusão
O sucesso da nossa prática depende da capacidade de observar o movimento do
cliente e oferecer um ambiente livre de críticas ou expectativas de resultados.
O material deve servir de ponte para o mergulho interior.
Comece por você: não há atalhos para ganhar experiência na prática artística.
Viva seu processo, frequente ateliês, participe de grupos criativos e faça da
arteterapia a sua própria jornada pessoal.
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enfrentam esses desafios no ateliê ou na clínica.
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📖 Leia também aqui no BLOG: [Bloqueio Criativo na Arte e na Arteterapia], por Bella Cesar.
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Em 2021 criou o projeto Arte para Terapia oferecendo cursos online de História da Arte para Terapia.
Membro fundadora do coletivo Arteterapeutas do Rio.


Excelente Flávia
ResponderExcluirEssa parte é profunda.
Não se torna arteterapeuta apenas estudando teoria. É preciso viver a própria análise simbólica.