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IMAGEM & ESCRITA NA VIDA E NA ARTETERAPIA.


 por Sandra Pinto

Quando penso no efeito que uma imagem produz, no sentido da sua  sacralidade, penso no mistério que une o corpo e a alma, penso no logos e no eros, não como entidades separadas, mas em perfeita comunhão. 


IMAGEM & ESCRITA NA VIDA E NA ARTETERAPIA.

Montagem fotográfica editada no Canva por Flávia Hargreaves, 2024.


"Ver o que vemos, 
mas manter o olhar não aprisionado pelo que se vê; 
aberto ao invisível"
Jean Yves Leloup


Sempre gostei de escrever. Poemas e outros escritos. Durante algum tempo, dada a exigência profissional, fiquei restrita à produção de cartas, ofícios, relatórios e projetos mas, sempre que possível, mesmo que de forma intermitente, buscava dar vazão à imaginação por meio da escrita.  Nesse momento ainda não estava conectada às  imagens.

Foi durante minha formação em Arteterapia que me dei conta do valor da   produção imagética na ampliação do olhar, e como inspiração poética. A conexão entre imagem e escrita ficou cada vez mais evidente na minha produção. Sentia uma necessidade orgânica de escrever sobre o que não estava visível a olho nu. Era como se as imagens dialogassem comigo e pedissem para ser desenhadas, também, através das  letras.

Numa aula sobre fauvismo do curso de Arte Moderna para Terapia da Flávia Hargreaves, pintei um boneco flamejante, boiando no espaço sideral.  Pinóquio surgiu sem que eu tivesse intenção de pintá-lo. Além da imagem, entrei na pele do autor, Carlo Collodi, e poetizei o nascimento de Pinóquio. Nesse momento a imagem entrou em ação, literalmente. 

Em outra oportunidade meu olhar transcendeu o real e enxerguei, através de uma janela,  torres de uma catedral  em lugar de ciprestes. Essa visão me inspirou a escrever o poema Catedrais, sobre se ver algo que de fato não está ali.

 

o que teu olho vê?

realidade ou fantasia?

qual é o teu olhar?

o que conserva a realidade a qual se habituou,

ou o que te faz co-criador de mundos?

 

como converter olhares,

se o teu próprio continua rígido?

 

aperte a menina dos olhos

ela gosta das cosquinhas feitas pelas pálpebras

transgrida as fibras das retinas

permita que o espectro da luz viaje

para além do quadrado

 

veja circular

 

nada é o que aparenta ser

aquilo que um dia jurou conhecer

desmancha na tua língua

feito algodão doce

 

precisamos dessa doçura

desse derretimento do olhar

amanteigar para enxergar

catedrais atrás das vidraças

 

converta-se!

 

Segundo Carl G. Jung, experienciar o numinoso [1] é  contatar o sagrado. É uma experiência que independe da nossa vontade, está presente nos campos da visibilidade e da invisibilidade, e sua influência causa uma peculiar alteração na consciência. Para mim a escrita poética nasce nesse lugar, na experiência com o numenna abertura ao invisível citada por Leloup.

Quando penso no efeito que uma imagem produz, no sentido da sua  sacralidade, penso no mistério que une o corpo e a alma, penso no logos e no eros, não como entidades separadas, mas em perfeita comunhão. A escrita poética, que nasce da percepção da sacralidade a partir de um objeto, não deseja explicar ou enquadrar racionalmente a imagem, mas funde-se à ela numa manifestação erótica.

A meu ver, a associação de uma imagem,  produzida pelo próprio sujeito ou não, com a escrita espontânea (poética) propicia o desdobramento dos símbolos e a conexão do sujeito com sua alma, sendo muito bem vinda na prática arteterapêutica.

[1] Samuels, Andrew  e outros - Dicionário crítico de análise junguiana, ed Imago, 1988)  "... Jung via o encontro com o numinoso como uma característica de toda experiência religiosa. A numinosidade é um aspecto de uma imagem de deus supra-ordenada, quer pessoal quer coletiva."

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Me conta aqui nos comentários o que pensa sobre o tema!

Caso tenha dificuldade em publicar seu comentário neste blog você poderá encaminhá-lo para o email: arteparaterapia@gmail.com que ele será publicado. 

Obrigada.

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Autora convidada: Sandra Pinto.



Sandra Pinto é poeta, ama crianças, bichos, escrita e artes em geral. Carioca da gema atualmente vive em Curitiba.  Graduada em História fez formação em Arteterapia no Ateliê Claudia Brasil (AARJ - nº790/0517), e especialização em Psicologia Analítica no Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa - IJEP.

Instagram: @sandrapinto.art

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ARTE PARA TERAPIA - criação e coordenação Flávia Hargreaves.




Flávia Hargreaves é arteterapeuta (AARJ 402/0508), artista e professora de artes para terapia.
Graduada em Comunicação Visual (EBA- UFRJ-1989)
Licenciatura Plena em Educação Artística - Artes Plásticas (EBA-UFRJ- 2010)
Formação em Arteterapia com Ligia Diniz (2009)

Participou como docente de História da Arte nos cursos de Formação em Arteterapia (Ligia Diniz, Baalaka e Leiza Pereira) e Artepsicoterapia (Coord. Maria Cristina Urrutigaray).
Em 2017 fundou o ateliê Locus, onde oferece cursos, ateliês livres e atendimentos em Arteterapia.
Foi colaboradora da Casa das Palmeiras (2014-2018) e Casa Verde (2009). 
Em 2021 criou o projeto Arte para Terapia oferecendo cursos online de História da Arte para Terapia. 
 

Siga-nos nas redes sociais

Contato

arteparaterapia@gmail.com

Comentários

  1. Respostas
    1. Seja bem-vinda Roseli. Que bom que curtiu o texto da Sandra! É um estímulo a colocarmos a nossa criatividade em ação de modo espontâneo e livre. Aproveite para passear aqui no blog e descobrir mais assuntos do seu interesse.

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  2. Sonia Pinto9/12/24 22:18

    Adorei o texto. A imagem é a forma que a alma encontra para se comunicar plenamente, sem censuras ou amarras. A imagem está no nível do sagrado em nós.

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    Respostas
    1. Que bom te ver por aqui Sonia. Quando nos expressamos poeticamente e nos permitimos a espontaneidade libertamos algo precioso em nós.

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  3. Muito bom o texto! Me lembrei de uma citação do Rudolf Steiner. " De dentro do teu coração uma radiante luz assoma, de onde a imagem...vem surgindo. Palavras posso ouvir provindo dela; soam assim: "Eu conquistei em mim a força que levará à luz".

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    Respostas
    1. Linda citação Vanda. Luz, Imagem, Palavras, Força, Luz.

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